rodriguesferreira.paulo@gmail.com

Moonrise Kingdom (2012)



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Examined Life (2008)



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Masturbação



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A resposta de Franz para os convites para apresentações de livros que recebia era sempre a mesma:"For a writer to spend much of his time in the company of authors is, you know, a form of masturbation. Graham Greene. Passe bem."

New York, New York (1977)



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Taxista



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Um taxista moldavo estica o dedo indicador para garantir que bêbedo que lhe manche os estofos da viatura conhece o sabor da sola do seu sapato. Acusa o mundo de estar perdido, de ser uma pena que na Rússia não exista dinheiro, que lá é que se vivia bem, que é pena que Angola tenha tantos pretos, porque pretos para o taxista são coisa com a qual não sabe lidar. "Outro mundo, amigos." Nos dias maus, confessa o taxista, minutos depois de ter prometido à juventude que lhe acertaria com a ponta do pé no traseiro, pensa em largar tudo e voltar para a sua terra. Acrescenta que é ríspido por não encontrar gente decente, que já ninguém respeita ninguém, que os ricos dão-se com os ricos e os pobres comem-se uns aos outros. O taxista pede a um dos jovens que transporta que lhe diga qual o título do livro que traz na mão. O jovem dá um nome de um sociólogo francês que, por ser de todo desconhecido para o taxista, o leva a perguntar se é preto. E como não é preto, o taxista relaxa os ombros, alisa a testa, um certo sinal de simpatia começa a despontar nos seus lábios: "Ler fazer bem, mas não para taxista, que ter de conduzir e não poder gastar o olho."

Ninguém liga



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Ninguém me liga, a comida não presta, a filha lá para a cidade, recusando-se a visitar-me, que se vier cá não descansa, que não pode estar sempre preocupada comigo, que tenho de espairecer, eu, quase nos cem anos, só faltam trinta, quase nos cem, setenta são mil, querem lá saber de mim, do que faço, do que como, desde que caia a herança, querem lá saber da dentadura partida, do dinheiro para o dentista, desde que lhes caiam uns milhares de patacos na conta quando me finar, para eles tudo bem, desde que só oiçam falar de mim através de um telefonema de funcionário de hospital a dizer que fui desta para melhor, passear, faça-o sozinha, que se diverte mais do que se estivesse connosco, assim é que se fala, morra aí para um canto que quando partir aparecemos no seu velório de óculos de sol para gozar o prato.

Caneta



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Franz não precisava de ler os livros de alguns conhecidos para saber que eram maus. Bastava olhar-lhes para a cara.

Perna apodrecida*



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A podridão vai subir-me pelo corpo acima e deixar-me morto até aos olhos. Até eu ser um cadáver capaz de ver ainda as coisas. Capaz de pensar ainda. E ao quarto dia estarei completamente morto.

- Denis Johnson, Sonhos e Comboios, Lisboa, Relógio d'Água, 2012, p.27


* Quando se lê um Cormac McCarthy, um Denis Johnson ou um David Vann e ao mesmo tempo se ouve dizer que existem escritores portugueses que merecem o Nobel da Literatura, fica-se com uma vontade enorme de rir.

Quatro



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Os comprimidos estão a acabar e amanhã, sábado, domingo, o dinheiro não chega, não tenho comprimidos e, sem dinheiro, com o marido a trabalhar, torna-se duro. Sozinha o dia todo, todos os dias, não me lembro de ter tido companhia nos últimos meses. O meu marido sempre a trabalhar: hoje não posso, esta semana é complicado, férias só para julho, agosto. Chega julho, agosto, férias nem vê-las, comprimidos, mais comprimidos, vinho para digerir os químicos. Companhia nenhuma, quero o divórcio, não preciso dele para nada, tomo três comprimidos por dia, agora quatro, que a dose saiu reforçada da última consulta com a doutora. Amanhã tenho quatro comprimidos para tomar e só me restam os quatro de hoje. Pedir dinheiro ao marido que está no trabalho, ocupado, ao telemóvel, não me interrompas, falamos logo, logo estarei a dormir, não falamos, não lhe peço dinheiro, envergonhada de já ter gasto todo, o meu e o dele, a conta quase a bater no zero. Se ele me ajudasse mais, se tivesse outro emprego, se emigrasse, se tivesse filhos, se fosse mais bonita, se ele me desse mais atenção, se os meus colegas  no trabalho fossem mais amigos, sei lá, se morresse, o quão diferente tudo seria.

People do evil things



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People do evil things to each other and cause each other pain, equally, we live in a world of natural uncontrollable pain and suffering - earthquakes, cancer, mental and physical handicap. The existence of this pain is an obstacle to belief because it seems either to limit God's power or to qualify his goodness. Either God cannot control this evil (and then he is not all-powerful) or, in some way, he wants it to exist (and he is not good).

- James Wood, The Broken Estate, Nova Iorque, Random House, 1999, p.260.

Compras



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Franz comprava todos os exemplares dos livros de Karl para que este sentisse que, apesar de muito famoso, não conseguia encontrar os seus livros em todas as livrarias. Karl comprava todos os livros de Franz para que este pensasse que a sua editora era tão pequena ao ponto de não distribuir as obras que publicava.

Biblioteca Nacional



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Esplendor



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Montaigne e Emerson



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A divisa de Montaigne bem poderá ser: "Deves conhecer a verdade, e a verdade tornar-te-á sábio." Suspeito que Emerson acabava por ser muito mais sombrio e mais céptico do que Montaigne, e é possível que tenha acabado por acreditar que nada poderia tornar-nos sábios.
- Harold Bloom, Onde Está a Sabedoria?, Lisboa, Relógio d'Água, 2008, p.115 

Angústia (1964)



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Conjecturas



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O sonho de Franz era que alguém um dia escrevesse sobre a obra de Karl o mesmo que Harold Bloom escrevera sobre a de Pascal: "Houve quem conjecturasse que Pascal redigira os Pensamentos tendo a todo o momento um exemplar aberto dos Ensaios  de Montaigne diante dos olhos."

Senhor doutor



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Talvez devesse pedir ajuda, amigo ajuda, sozinho, liga. Não é normal passar a manhã, a tarde, a noite, a madrugada e outra vez a manhã a pensar se vale a pena, se os comprimidos, se morrer não seria melhor, se insistir, bater na mesma tecla, enfim. Telefonar ao amigo, marcar um encontro, despejar os sentimentos, os desabafos, mundo negro, meu amigo, quero morrer, isto não vale a pena, não sinto coisas,  vitórias não tenho, se tivesse não as sentia, não tenho nada, e quando se fala de ter, quer-se dizer algo que não carros, roupa, viagens, marcas. A caixa de comprimidos toda a manhã a contemplar o cidadão anónimo deitado em sua cama, como se pedisse para ser engolida de uma vez. Amigo, confessionário, aparece em minha casa a x horas, traz o vinho, eu cozinho, e depois não temos conversa, silêncio, chove amanhã, muito trabalho, o costume, e então prefiro ficar sozinho sem ouvir vozes, que incomoda mais estar acompanhado. Procurar ajuda, psicólogo, calmantes, senhor doutor, a vida é uma treta, morremos, somos um bocadinho de banha de porco, e o senhor doutor acalmando-me, prescrevendo proactividade, eu tombado, salivando, afundado no divã, banha de porco, doutor, não passamos disto.

Moneyball (2011)



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Jennifer Egan



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Realização



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Paciência e mais paciência, acabaremos por vencer. Devemos desconfiar muito dos logros do elemento temporal. É preciso muito tempo para comer, dormir ou ganhar cem dólares e muito pouco tempo para alimentar uma esperança e uma visão que se tornem a feições, discutimos os assuntos domésticos com a nossa esposa, e estas coisas não causam nenhuma impressão, são esquecidas na semana seguinte; porém, na solidão à qual cada homem está sempre a voltar, há uma sanidade mental e revelações que levará consigo na sua viagem para novos mundos."Nunca te preocupes com o ridículo, nem com a derrota: ergue-te de novo, meu velho!" - parece-me dizer. Ainda há uma vitória para toda a justiça, e o romance verdadeiro para cuja realização o mundo existe será a transformação do génio em poder prático. 

- Ralph Waldo Emerson, A Confiança em Si, A Natureza e Outros Ensaios, Lisboa, Relógio d'Água, 2009, p.161. 

O mundo



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Gosto de ti, murmurava, gosto de ti, para ouvir a sua própria voz, para acreditar, gosto de ti como na primeira vez que te vi, embora com cabelo diferente, outro sorriso, menos pança (os dois com menos pança), o corpo e as conversas menos mitificadas (a realidade é dura), ainda te suporto, o comando da televisão, fica com ele, vê a telenovela, a Oprah e a Júlia, o que quiseres, ainda gosto de ti e os teus pés não são horrorosos, as varizes, não, são nódoas negras, ainda és a menina que me parecia uma princesa, não bebes demais, não fumo cigarro atrás de cigarro para te conseguir aturar, não é tudo tão chato e aborrecido, e os comprimidos que engoles não são por minha causa, claro que não, é o mundo, triste como tudo, deprime. 

Pecador



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Dentadura



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"Há uma boa maneira de preservar a sua dentição", contou o professor Sherwood a um pequeno admirador. "Nunca provoque alguém que pese mais de noventa quilos. Nunca chame patético a alguém que enchape murros com uma velocidade tal que não se veja a mão a bater." O pequeno admirador perguntou: "Por que motivo o senhor usa dentadura?" Sherwood não queria recordar um pontapé antigo que lhe caíra na face, mas recordou.

O Intendente Sansho (1954)



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Fazer-se ao piso



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- Olha que o senhor Castro anda a fazer-se ao piso
não acreditei. Não acreditei à uma porque o senhor Castro é padrinho do nosso Ricardo Jorge. Não acreditei às duas porque a esposa, a dona Regina, é uma fera e o senhor Castro tem-lhe um cagaço que se pela. E não acreditei às três porque a Carminda é vesga.

- António Lobo Antunes, Livro de Crónicas, Lisboa, D. Quixote, 2008, .p.261.

Fobia



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Conheci uma mulher que padece de uma fobia que a impede de contactar com pessoas. O indivíduo aproxima-se para cumprimentá-la, repara na cara de nojo que a mulher faz, recua e limita-se a acenar a pelo menos metro e meio de distância. Fiquei, mais do que admirador da mulher, tentado a padecer desta fobia sempre que os níveis de estupidez das pessoas com as quais sou obrigado a contactar (supermercado, trabalho, transportes públicos, etc.) forem preocupantes. Poderia, por exemplo, a meio de um jantar  de amigos, pedir silêncio e, para me desculpar, invocar a minha condição de enfermo: "É que sofro de um mal que me impede de ouvir disparates."

Nobody will miss it



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Haywire (2011)



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The Iron Lady (2011)



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Memória



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A memória alimenta-se do pesar que nos agrilhoa àqueles que já não podemos recuperar.

- Norman Manea, O Regresso do Hooligan, Alfragide, Asa, 2010, p.129

Diferenças



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Enquanto Franz considerava que os grandes adversários do escritor eram o pânico e a ansiedade, Karl acreditava que o escritor era uma espécie de máquina de escrever que, perante a folha branca de papel, escreveria sempre, independentemente de tudo o resto. Acrescente-se que Franz demorava muito tempo a escrever um livro e tinha muito cuidado com as palavras que escolhia, e Karl não só lançava livros de quinhentas páginas por semestre, como tinha um grande prazer em usar expressões como "pró-activo".


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Namorada



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Uma antiga namorada de Franz assumia uma personalidade diferente, consoante os romances que lia. Poderia acordar alegre, triste, eufórica, deprimida, religiosa, ateia, com pensamentos suicidas, cheia de vontade de trair. Entre Bovary e Joseph K., havia muita oscilação. Quando Karl lha roubou, pensando que estava a desferir um grande golpe no ego do seu inimigo, foi Franz quem ficou a rir.

Agradecimentos



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Para além de ser autor de livros geniais, David Vann enche a página dos agradecimentos com palavras tão bonitas como estas:

E há sobretudo a minha mulher, Nancy Flores, que nunca perdeu o seu bom humor, mesmo quando não havia livro nenhum, nem nenhum dinheiro, e eu andei vestido com a mesma camisola todos os dias durante um ano.
- David Vann, A Ilha de Caribou, Porto, Ahab, 2012


Privacidade



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Karl e Franz conheciam-se tão bem que, em determinado colóquio, de homenagem a um premiado falecido poucas semanas antes, começaram a trocar acusações tão elevadas como: "O senhor nem com comprimidos sacia os desejos da sua esposa."  Ou: "Uma vez por mês e a senhora já fica toda contente."

Pensamentos



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O que Franz pensava de Karl: um homem ambicioso que, embora não soubesse ler nem escrever, alcançara a fama com os livros que publicara. O que Karl pensava de Franz: um homem arrogante ao qual faltava menos talento do que humildade para compreender a diferença entre o sucesso e o fracasso.

Caldeireiro



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Um dia, leitor, hei-de contar as ânsias e tormentos com que se vai martelando esta artesania da escrita, em que ainda sobrevive a mão do caldeireiro ou, talvez do fazedor de autómatos, e explicar como é desolador chegar ao nascer da roxa aurora e ao rumor dos primeiros autocarros, quando a tripulação de um avião de Leste sai do hotel em frente para a carrinha do aeroporto, apenas com duas ou três páginas sofrivelmente apontadas. 

- Mário de Carvalho, Fantasia para Dois Coronéis e Uma Piscina, Lisboa, Caminho, 2003, p.216.

Fools



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Escrita



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A escrita tem origem na leitura, escreve-se porque outros antes de nós escreveram, e lê-se porque outros antes de nós leram.

- Enrique Vila-Matas, Diário Volúvel, Lisboa, Teorema, 2010, p.269.

Ciúme



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        Não é que Gregor fosse um mau marido, apenas não gostava que a sua esposa passasse os dias na igreja, bajulando o padre. Em certa ocasião, descabelado e bêbedo, partiu três dentes à mulher com um soco e jurou fazer o mesmo ao padre assim que o patrão lhe concedesse um dia de folga.
         "O senhor padre não imagina o que o meu marido me fez", confessou a mulher de Gregor ao padre, um dia depois de ter ficado sem dentes."Desfez-me a boca e prometeu fazer-lhe o mesmo trabalho."
         "Acalme-se, filha, na casa de Deus ninguém bate em ninguém."
         Gregor um dia foi liberado do trabalho pelo patrão. A primeira coisa que fez foi arrancar o "teclado ao bicho".
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